Eros, Thanatos e BDSM

hr_giger_necronom_VCodícia, desenfreada luxuria… o ser humano cheio de desejos, filho de Cupido…

De fato, a Codícia é uma corrupção da palavra latina “Cupiditia” que é apetite desordenado de riquezas, desejo veemente de coisas boas.

Coisas boas são obviamente pertencentes a todas as categorias… incluindo objetos, comida e, obviamente, sexo.

Os termos libido, avidez, ganância foram todos englobados no termo luxúria que evoca a divindade latina de Cupido e a palavra foi obtida do latim cùpidum (ansioso, desejoso sem limites), que tem como objetivo da própria vida a acumulação e o consumo cobiçoso de coisas induzida pelo mercado sem considerar o ambiente no qual ele vive.

Cupído é aquela pessoa que tem cobiça, desejo, desmesurada avareza, desenfreada sexualidade, luxúria, ganância, codícia. Esta palavra, Codícia, teve a mesma origem que Cupido? Do Deus Cupido como o conhecemos?

Originalmente, antes de ser um querubim alado, com uma bundinha rosada e redonda sempre à vista e com o pênis minúsculo pouco exposto, que com arco e flecha perfura os deuses e os homens … Cupido era um jovem deus adulto de beleza deslumbrantemente sexual, talvez o hermafrodita filho de Hermes e de Afrodite … era também um mensageiro alado que … com arco e flecha … acerta homens e mulheres com todos os desejos possíveis … não apenas sexo

Somente após muito tempo, com a cultura helenística do epicurismo, Cupido foi concebido como um querubim alado inocente que atinge o coração dos deuses e dos homens também através do sentimento. O “sentimento” de fato, podia se relacionar com todos os aspectos da vida e mesmo com todos os “desejos” também aqueles não relacionados ao” sexo “.

Por meio da a fusão de sexo e sentimento, Eros se tornou o Deus de todos os desejos … até aqueles inconscientes. Ele se tornou o Deus do desejo absoluto, e, portanto, o Deus do desejo sexual que, como o mais forte e mais irresistível, poderia representar todos os desejos, mesmo aqueles de origem material.

Eros e Cupido trouxeram os sentimentos para a Luxuria.

Mas o que é exatamente a Luxuria?

A palavra luxúria deriva do latim Luxus, que é exuberância de vegetação, desenfreados desejos sensuais (não necessariamente sexuais), aquisição de coisas supérfluas e uso desenfreado de coisas consideradas muito boas para impressionar os outros (na concepção moderna roupas, moradias, carros, etc.).

Sigmund Freud (1856 – 1939) em “O Mal-estar na Civilização” (1930) enfrenta o problema da Civilização, de como o processo de civilização ocidental tenha trazido severas consequências e necessidade de renunciar à satisfação do Desejo Sexual.

O pensamento de Freud, influenciado pela época em que viveu, junto a uma conceição errática da mulher, se revelou esquemático demais para poder ser considerado hoje com o mesmo entusiasmo dos anos seguintes a segunda guerra mundial.

No esquema de Freud o Sexo é Tudo.

Em “O Mal-estar na Civilização”, Freud propõe novamente a teoria das pulsões de Vita e Morte, que já havia introduzido no livro “Além do princípio do prazer” (1920), onde por Vida ele entende Eros como Sexo Genital, que impulsiona para a satisfação do Prazer, e entende Thanatos como a pulsão inconsciente da Morte Física que nos empurra para a Autodestruição.

Freud, no entanto, não compreende a real dimensão mitológica e filosófica do Eros-Cupido, a jovem adulta divindade de imensa beleza que golpeia os seres humanos com as flechas de Todos os Desejos, Sexuais-Materiais e Sensuais-Imateriais.

Mas sobre tudo, Freud não entende que Eros e Thanatos não podem existir entrelaçados de forma a delinear um interior Sado-Masoquista do ser humano, desenvolvendo ao mesmo tempo e na mesma pessoa aspectos Sádicos e Masoquistas a cada momento da vida.

Não é de fato possível ser Sádico e Masoquista ao mesmo tempo pois os tempos destas experiencias são separados. O mesmo fluir da vida e dos eventos separam estas experiencias, tanto no contexto Sexual-Material, como no contexto A-Sexual-Imaterial.

Então o ser humano pratica Sadismo ou Masoquismo, dependendo da situação e do momento em que se encontra. E todos praticamos antes ou depois os dois lados, de forma consciente ou inconsciente. O masoquista se regozija no prazer de ser objeto do desejo de outrem, mesmo que isto lhe cause sofrimento e deste sofrimento traz o próprio prazer.

O Sádico precisa de uma vítima. O outro, a vítima do Sadismo, não tem somente semblante humano, as vezes tem o semblante puro do nosso desejo, da Luxúria.

A tensão entre Eros-Cupido e Thanatos fornecem ao Sádico os instrumentos da desumanização da vítima, colocando nela capuzes, alterando as formas por meio de mascaras e fantasias, modificando o corpo, se bem momentaneamente, com as práticas. Estas modificações de semblante, sejam elas realizadas com capuzes e fantasias, ou por meio de hematomas, perfurações, restrições, têm o objetivo de desumanizar o Objeto de Desejo, que se torna diferente de um ser humano que encontramos no nosso dia a dia.

A vítima, o Masoquista, por sua vez, interpreta estas modificações, as humilhações, a dor, a restrição, como uma resposta as próprias pulsões de morte (Thanatos) e sente que volta a vida, renovado no prazer de ser objeto da Luxuria alheia, de ser Objeto de Desejo, de ser Artigo de Luxo e cobiça.

Esta desumanização, consciente e consentida permite gerenciar as pulsões de Eros-Cupido e de Thanatos, em um jogo que é o BDSM, um jogo sensual-imaterial e sexual-material.

O outro, a vítima, necessita, no entanto, de Moderação. Leopold von Sacher-Masoch (1836 – 1895) assinou com a Baronesa Fanny Pistor, um contrato que o tornava escravo dela pelo período de seis meses, e que contemplava as regras necessárias a uma convivência saudável dentro dos fetiches.

A ansiedade e a obsessão em satisfazer Todos os Desejos, típica do Sádico que representa o contexto mitológico e filosófico de Eros-Cupido, conduz a um sentimento de morte (Thanatos) das relações naturais, conduzindo a um Mercado de Todos os Desejos, onde uma Peça possa ser descartável ou quebrar. Podemos observar estas situações em duas obras de Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740 – 1814): “Justine ou os infortúnios da virtude” 1791 e “A Filosofia na Alcova” 1795.

Precisamos pensar que nossas ações, ficam eternamente gravadas na nossa história, assim como na história dos outros, indeléveis.

Neste contexto, a Peça, o Masoquista precisa ser considerado com Moderação e com Empatia.

São estes dois princípios que separam o encontro de Desejos, de uma psicopatia. Não podemos, portanto, permitir que Thanatos se realize em morte espiritual do outro como resposta a Eros-Cupido.

No bem e no mal, nossas ações são imortais, moldadas na nossa liberdade individual e executadas na liberdade coletiva. A responsabilidade, no entanto, é somente nossa.

Um pensamento sobre “Eros, Thanatos e BDSM

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